quinta-feira, 6 de outubro de 2016

A solidão do fim




O que faço de mim, aos oitenta anos se nem um filho me quer, asilo é minha penúltima morada. Aí faço um retrocesso na minha vida, ainda jovem casada com João, que Deus o tenha, muitos filhos, mas feliz
Hoje sou o estorvo dos meus filhos, meu consolo é que um dia eles também irão envelhecer e seus filhos os jogarão num asilo fétido como fizeram comigo.
Tenho saudades dos meus filhos pequeninos que toda hora me chamavam de mãe daqui e dali. Eu era feliz com a criançada que ao redor do fogão a lenha, os milhos verdes estalavam para assar.
Corriam atrás de três galinhas aos domingo, onde fazia uma panelada de carne de frango caipira e um prato de polenta, cada um.
Já saciados saíam correndo para brincar no campo chegando quase ao pôr do sol, as tinas estavam cheias de águas e sabonetes e bucha para se esfregarem, as meninas iam ao banheiro e saiam lindas e cheirosas
Cresceram tinham que ajudar seu pai na rocinha, metade iam para a escola de manhã e a tarde trabalhavam e vice/versa. Enfim todos fizeram até o ginasial.
De repente fui perdendo meus filhos rapidamente por uma cidade grande: trabalho em casa de família, à tarde iam estudar. Cada um se virou.
Desde então, nunca mai vi meus filhos, devo ter netos, bisnetos... Assim é a vida de muitos. Meu velho, minha companhia morreu há dez anos
Agora eu sou o estorvo que nem os urubus querem ver.

11 comentários:

  1. Belo texto
    E velhice assusta-me e entristece-me.

    Bom fim de semana
    Beijos

    http://coisasdeumavida172.blogspot.pt/

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  2. Infelizmente é o que acontece com muita frequência nos dias que correm nesta sociedade de consume em que os valores humanos pouco conta.
    Um abraço e bom fim-de-semana.
    Andarilhar

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  3. Texto triste, amargurado e vingativo, nossa, ficar velho e ter de desejar o mesmo fim triste aos filhos, isso é de amargar e vai contra o amor materno, sim, amor materno é incondicional!
    Que pena que há mesmo isso, muitas mães abandonadas em asilos, retratastes bem muitas realidades!
    Abraços amiga Dorli!

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  4. A idade chega para todos,a não ser que seja chamado antes do tempo para a nova morada,mas nos assusta essa indiferença dos filhos que rejeitam um pai ou uma mãe pela idade ou por alguma doença,pois eles também serão idosos,suas pernas já não se sustentarão,suas rugas aparecerão e as doenças também,e aí terão que aceitar a velhice e chorar por não ter no passado feito o que deveriam fazer:Cuidar daqueles que um dia aceitaram amá-los para sempre.
    Muito triste!
    Belo texto Dorli.
    Bjs e um ótimo final de semana.
    Carmen Lúcia.

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  5. Dorli,não estou conseguindo comentar no Lua Singular.
    Bjs-Carmen Lúcia.

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    1. Tá tudo certinho lá Carmem
      Se não der não tem problema, outro dia você faz
      Beijos
      Minicontista2



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  6. Na verdade, e dado que as pessoas morrem cada vez mais velhas e sem autonomia, os filhos acabam por colocar os seus pais em asilos ou lares de idosos. Mas, em muitos casos, esta opção é melhor do que ficar em casa, porque esta não tem condições, os filhos não têm tempo e/ou porque os pais já nem reconhecem os filhos. Mas o ideal seria que os velhos morressem em casa...
    Magnífico texto, querida amiga, a colocar um dedo numa ferida social que tende a aumentar.
    Dorli, tem um bom fim de semana.
    Beijo.

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    1. Os meus morreram perto de mim
      A morte dilacera o coração, é triste demais.
      Beijos
      Minicontista2

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  7. Muito bom, Dorli, e como isso acontece! Meus pais morreram com os filhos de mãos com eles. Com filhos, netos, genro e nora. Jamais os colocaria num asilo, casa de repouso o que for...
    Deixaria tudo para cuidar deles, bem que moravam pertinho...
    Beijo!

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  8. La realidad de la vida, los que tienen hijos y los que no tienen se sienten abandonados a finales de sus años, envejecer con salud o sin ella siempre uno necesita los cuidados de los otros en sus últimos años.
    Un abrazo.

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  9. Muitos se encontram abandonados e nunca recebem uma visita se quer de algum familiar. Desejo a você uma linda semana.

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